Como aplicar a terapia cognitivo-comportamental em casos de transtorno alimentar?

Nos últimos anos, o aumento no número de casos de pessoas acometidas por um transtorno alimentar tem chamado a atenção de profissionais da saúde. Nesse sentido, é pertinente afirmar que alguns aspectos sociais estão ligados ao tema, como a definição de padrões de beleza midiáticos e a pressão social por corpos magros ou malhados.

Além disso, outras questões emocionais, como depressão e ansiedade, também podem ser fatores de risco para o desenvolvimento desses problemas. Nesses casos, o tratamento é complexo e envolve diversas frentes. Por sua vez, as técnicas da terapia cognitivo-comportamental (TCC) tem contribuído muito para o sucesso das intervenções clínicas.

Quer saber mais sobre o assunto? No post, identificamos os principais tipos de transtorno alimentar e explicamos como a TCC pode ser aplicada! Vamos lá?

O que são transtornos alimentares e quais os principais tipos?

Basicamente, transtornos alimentares são perturbações no comportamento alimentar. Porém, não se limitam a isso. Em geral, eles estão relacionados a aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Assim, são considerados quadros psiquiátricos em que o sintoma alimentar aparece em função de complicações de outras ordens.

Existe uma influência clara da pressão social que impõe um padrão de beleza. Por isso, o transtorno alimentar é mais comum em adolescentes, principalmente do sexo feminino — grupo que está mais vulnerável em relação a essa imposição. Além disso, o problema afeta mais fortemente determinadas profissões, como as ligadas ao mundo da moda.

Transtornos alimentares não são simples. Eles causam grande prejuízo à vida da pessoa e são potencialmente crônicos, de difícil tratamento. A alteração nos comportamentos alimentares, o controle excessivo do corpo e as estratégias doentias para diminuição do peso podem causar graves problemas de saúde, como a anemia severa.

Anorexia nervosa

A anorexia é um distúrbio de imagem corporal no qual o indivíduo sempre se enxerga mais gordo do que é. Isso faz com que a pessoa anoréxica continue com comportamentos doentios de controle de peso mesmo quando atinge um índice de massa corporal baixíssimo.

Nesse transtorno, longos períodos sem ingestão de alimentos, prática exagerada de exercícios físicos e uso de remédios laxantes ou diuréticos são comuns. Em casos mais graves, a anorexia pode gerar gastrite, anemia, hipotermia e inibição do ciclo menstrual. Além disso, os portadores dessa desordem podem chegar rapidamente a um grau de desnutrição, necessitando, inclusive, de tratamento hospitalar.

Sintomas

Alguns indícios desse transtorno alimentar incluem:

  • perda exagerada de peso sem causas clínicas, chegando a índices de massa corporal (IMC) abaixo de 17;
  • comportamento de esquiva diante de encontros familiares e sociais que incluam alimentos;
  • preocupação obsessiva com a quantidade de calorias das refeições;
  • medo exagerado de engordar.

Além dos sintomas já citados — anemia, gastrite, irregularidades menstruais etc. —, outros problemas físicos decorrentes da anorexia são ressecamento da pele, queda brusca no sistema imunológico, perda da resistência óssea e desgaste muscular. Os aspectos cognitivos também sofrem alteração, como falhas na memória e pensamento confuso.

Bulimia nervosa

A bulimia também é um transtorno ligado à preocupação excessiva em não ganhar peso. Mas, ao contrário da anorexia, as pessoas acometidas por esse problema comem normalmente ou têm episódios de compulsão alimentar, seguidos de vômitos forçados ou uso de laxantes.

Além dos comprometimentos psíquicos, a prática constante de vômitos também traz consequências como inflamação crônica na garganta, erosão do esmalte dentário, problemas gastrointestinais, entre outras.

Sintomas

Portadores de bulimia apresentam alguns sinais semelhantes aos da anorexia, ou seja, são manifestações típicas dos casos de transtorno alimentar, como medo excessivo de engordar, uso de laxantes e diuréticos etc. Além disso, na bulimia, ainda existem os momentos de perda de controle sobre o consumo de alimento. Quando isso acontece, a pessoa come até sentir desconforto, para depois utilizar estratégias a fim de eliminar o alimento do corpo.

Entre as possíveis complicações desse transtorno alimentar, podemos citar:

  • lesões no esôfago;
  • pancreatite;
  • desidratação;
  • constipação;
  • hemorroidas.

Transtorno de compulsão alimentar

Pessoas com esse distúrbio apresentam comportamentos compulsivos, com grande ingestão de alimentos em curtos períodos. Mas, ao contrário da bulimia, não há práticas compensatórias depois.

Assim, uma das maiores consequências é o aumento excessivo de peso. O índice de massa corporal crítico traz maiores riscos de doenças cardiovasculares e elevação da pressão arterial. Além disso, os episódios de compulsão são seguidos por fortes sentimentos de culpa.

Sintomas

Os portadores do transtorno de compulsão alimentar têm hábitos característicos, como comer exageradamente e muito rápido. Além disso, preferem degustar os alimentos escondidos, devido ao sentimento de culpa e medo de julgamentos.

Algumas consequências físicas e emocionais desse transtorno são:

  • obesidade;
  • aumento da pressão arterial;
  • diabetes tipo 2;
  • vergonha de si mesmo, tanto pelo corpo quanto pela relação de descontrole com o alimento.

Ortorexia nervosa

O comportamento alimentar saudável nem sempre indica uma relação positiva com a comida. Nos últimos anos, tem aumentado a ocorrência de ortorexia, que também é um tipo de compulsão. Nesse caso, a obsessão é por ter um corpo saudável e malhado. É comum a prática de dietas rígidas, a exclusão de muitos alimentos (geralmente, sem orientação de nutricionistas) e o excesso de exercício físico.

Sintomas

A ortorexia é marcada pelos seguintes sintomas:

  • recusa de refeições fora de casa, bem como de produtos industrializados;
  • preocupação constante em manter uma alimentação saudável;
  • exclusão de determinados grupos de alimentos da dieta;
  • sentimento de culpa e fracasso por consumir algum alimento calórico;
  • isolamento social;
  • anemia.

Quais são os fatores de risco para o desenvolvimento desse tipo de transtorno?

Assim como em outras desordens psicológicas, pode haver uma junção de fatores por trás de um transtorno alimentar. As principais questões que podemos correlacionar a esse problema incluem o culto excessivo à aparência física, a baixa autoestima ou mesmo o comportamento alimentar habitual. Entenda!

Culto excessivo ao corpo

A imposição de padrões de beleza e a ambição por um corpo perfeito não são temas retratados somente na era atual. Na verdade, se buscarmos a fundo, veremos que as exigências sociais eram explícitas, assim como as posturas de incentivo à intolerância — ou o famoso bullying.

Relembre os programas televisivos, até os que eram voltados para o público infantil. Havia um nítido desrespeito com as pessoas obesas. As “brincadeiras” de natureza ofensiva eram entendidas como algo normal e aceitável, sendo que até hoje alguns posicionamentos desse tipo ainda são incentivados ou foram transmitidos de geração para geração. Mas pense em quantos transtornos podem ter se desenvolvido desde então.

Portanto, as cobranças — na maior parte das vezes, feitas no próprio núcleo familiar — e a sensação de humilhação experimentada no convívio social, desde a idade escolar, podem ter sido gatilhos para o culto excessivo ao corpo. Por trás disso, existe uma das principais crenças irracionais do ser humano: a necessidade de ser perfeito.

Maus hábitos alimentares

O comportamento alimentar desregrado também pode estar associado ao desenvolvimento desses transtornos. A alimentação como forma de subsistência deve ser feita com equilíbrio, contemplando uma variedade de grupos de nutrientes. Pessoas com transtornos alimentares, não raro, preferem produtos hipercalóricos, como doces e carboidratos — seja pela junção de sabor, prazer e sensação de recompensa, seja por autossabotagem.

Para estabelecer uma relação saudável com o alimento, é importante saber diferenciar a fome orgânica da fome emocional. A primeira é percebida quando o corpo tem necessidade de alimentação para preservar as funções vitais do organismo. Já no segundo caso, existe um busca por comida como forma de sentir alívio e suprir emoções mal compreendidas.

Distorção da imagem corporal

Olhar-se no espelho e não conseguir ver algo bonito é uma realidade de quem sofre com transtorno alimentar. Mas, como a própria TCC explica, é a nossa forma de enxergar e interpretar os fatos que causa sofrimento psíquico e disfunções comportamentais.

Nesse sentido, fica claro que essas pessoas têm uma visão distorcida de si mesmas, uma vez que negligenciam seus pontos fortes e maximizam (ou criam na mente) seus defeitos. A TCC tem um papel de alta relevância na desconstrução de pensamentos destrutivos e na formulação de posturas mais funcionais.

Baixa autoestima

O sentimento de baixa autoestima está presente na maior parte dos problemas emocionais, sendo que sua origem, em muitos casos, está em um desenvolvimento socioafetivo deficiente, desde a primeira infância.

A falta de autoestima faz com que as pessoas desenvolvam determinados mecanismos para conseguir aprovação social. Isso é muito claro nos casos de transtorno alimentar, visto que o culto excessivo à aparência perfeita apenas reflete a necessidade de ser aceito e apreciado pelos outros. Aqui, fica clara a importância de trabalhar essa questão em terapia e desenvolver mais autoconfiança e autoaceitação.

Sentimento de culpa

Assim como a baixa autoestima, o sentimento de culpa é uma das características mais comuns dos distúrbios emocionais. Nos casos de transtorno alimentar, não é diferente. As pessoas se consomem pela culpa quando comem em excesso, quando deixam de comer ou quando são questionadas (julgadas) por seu comportamento em relação à comida.

Da mesma forma, quem sofre com algum tipo de transtorno alimentar se sente extremamente culpado quando sua aparência física é colocada em pauta. A culpa é por não ter o corpo idealizado, por não ser “bom o bastante” para a sociedade e, principalmente, por não saber como lidar com esse turbilhão de sentimentos destrutivos.

Questões hormonais

O indivíduo com transtorno alimentar também pode ser desfavorecido por questões hormonais. Fatores biológicos comumente fazem parte da etiologia das desordens psicológicas. Nesse caso, a relação entre hormônios e corpo é ainda mais evidente, sendo que o desequilíbrio dessas substâncias pode ser tanto causa quanto sintoma de determinados quadros clínicos.

Alguns importantes exemplos de hormônios que atuam na neurofisiologia do transtorno alimentar são:

  • serotonina;
  • noradrenalina;
  • dopamina;
  • leptina;
  • grelina.

Como a terapia cognitivo-comportamental atua nesses casos?

A TCC visa a uma intervenção direta que ajude o paciente a superar seu distúrbio de imagem corporal. Além disso, busca diminuir as práticas rígidas de dieta ou atividade física, facilitar o aumento saudável do peso e modificar o sistema disfuncional de crenças associadas à aparência, ao peso e à alimentação.

A terapia cognitivo-comportamental atua em fatores cognitivos, emocionais e comportamentais. Assim, compreende o transtorno alimentar de maneira global e oferece uma intervenção objetiva e orientada por metas. Ela pode ser utilizada no formato individual ou em grupo, a depender da demanda de cada paciente.

O atendimento clínico é desenvolvido por meio de três etapas, sendo que na primeira fase o objetivo é envolver o paciente no processo, explicando a ele sobre as características do transtorno alimentar e estabelecendo as metas de avaliação do peso e de um padrão regular de alimentação.

A segunda fase é marcada pela reestruturação cognitiva. Aqui o objetivo é identificar e modificar as crenças irracionais que mantêm o transtorno alimentar. Na terceira etapa, paciente e psicólogo vão retomar as conquistas anteriores e traçar um plano de prevenção de recaídas.

Um fator indispensável para o sucesso do tratamento é a relação terapêutica. Para que o paciente se comprometa com a psicoterapia e confie no profissional, é importante ter uma atitude empática e responder às dificuldades e necessidades dele. Na TCC, terapeuta e paciente têm participação ativa na identificação dos problemas e na seleção das estratégias de enfrentamento.

Por que a TCC pode ser a abordagem mais indicada?

O tratamento do transtorno alimentar com terapia cognitivo-comportamental proporciona respostas rápidas aos sintomas por meio de uma intervenção objetiva e direcionada. Como atua nas questões cognitivas e comportamentais, a TCC se adéqua muito bem às problemáticas desse tipo de transtorno.

Um dos diferenciais mais vantajosos é a adesão ao tratamento. O psicólogo realiza uma psicoeducação sobre o transtorno, envolvendo o paciente e a família na luta contra o problema. Como citado, eles passam a se sentir parte ativa no processo, envolvendo-se com a identificação das dificuldades e das potencialidades.

Inicialmente, o tratamento de transtornos alimentares focava apenas na recuperação do peso. Entretanto, nas últimas décadas, temos avançado muito na compreensão dessas doenças, principalmente da sua base cognitiva. Hoje em dia, a intervenção é feita de modo multifatorial. Além dos atendimentos psicológicos, outros profissionais são importantes, como nutricionistas, psiquiatras e médicos de outras especialidades.

A depender do caso, podem ser necessárias diferentes modalidades de tratamento, como internação hospitalar, atendimento ambulatorial ou uso de medicamentos (antidepressivos, ansiolíticos ou antipsicóticos). A intervenção com a participação da família também é essencial para construir uma rede de apoio para o paciente.

A superação de um transtorno alimentar não é fácil, principalmente se ele estiver em uma fase mais crítica. Mesmo assim, com intervenções responsáveis e interdisciplinares, é possível ajudar o paciente a recuperar sua qualidade de vida. Nesse cenário, a atuação da TCC é fundamental!

Então, gostou deste post? Aproveite sua visita à página e entenda quais são os benefícios da terapia cognitivo-comportamental para os adolescentes.

Este post foi elaborado com a colaboração da Psicóloga Larissa Gress de Lima, Docente convidada do Cognitivo.

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