Como identificar e tratar o Transtorno de Personalidade Dependente?

Quantas vezes um psicólogo já escutou dos seus pacientes a seguinte frase: “doutor, eu não consigo realizar nada sozinho, parece que sempre dependo dos outros para cumprir as mais simples tarefas”? Esse discurso é muito comum no ambiente terapêutico, já que diversas pessoas sentem o peso de não ter em suas mãos a liberdade de guiar a própria vida.

Ainda que seja um sintoma neurótico bastante recorrente, essa característica, quando levada ao extremo, pode caracterizar o Transtorno de Personalidade Dependente (TPD), uma psicopatologia que traz sérias consequências para o dia a dia dos seus pacientes.

Com o objetivo de aprimorar o seu conhecimento sobre o transtorno, desenvolvemos este artigo com as principais informações sobre ele, bem como as melhores formas de tratamento, para você construir um serviço de qualidade. Confira!

O que é esse transtorno?

Como o próprio nome aponta, o TPD é comumente nomeado como dependência emocional, caracterizando a personalidade de alguém que demanda uma atenção exagerada de uma figura de apoio, dificultando a qualidade de vida e prejudicando sua saúde física, emocional e mental.

Nesse sentido, não é difícil compreender que o desconforto, os temores de abandono e a angústia são sintomas comuns no dia a dia de quem apresenta o TPD, não é mesmo? 

Afinal, ao depender das suas figuras de referência, o sujeito dificilmente conseguirá assumir um alto cargo em uma grande empresa, por exemplo, ou, ainda, iniciar pequenos projetos pessoais por acreditar não ser capaz de dar conta das responsabilidades. 

Isso quer dizer que mesmo nas menores decisões, os pacientes com TPD tendem a apresentar dificuldades em fazer uma escolha saudável, contando com a ajuda dos seus familiares ou amigos muito próximos para auxiliá-los.

Assim, as crises de ansiedade e as inconstâncias são variáveis frequentes para esses pacientes, trazendo uma enorme dificuldade de viver de forma saudável. É por isso que existem diversas comorbidades, como depressão, ansiedade, estresse crônico e transtorno borderline.

O que caracteriza o Transtorno de Personalidade Dependente?

Trabalhar com pacientes com TPD é um grande desafio para todas as abordagens de psicoterapia, tendo em vista a constante resistência à mudança. Afinal, ao acreditar que não consegue realizar nada sozinha, a pessoa pode desistir do processo terapêutico e retornar aos mesmos padrões comportamentais que a colocam em um lugar conhecido e, portanto, confortável.

O fato é que é responsabilidade do psicólogo conhecer e investigar as principais características do transtorno para saber como manejá-las corretamente na clínica, orientando o paciente ao longo do tratamento para que ele aprenda a lidar com seus desafios de maneira saudável.

Por isso, separamos, a seguir, as principais características e sintomas do TPD para você aprofundar seus conhecimentos e aprimorar o seu trabalho. Acompanhe!

Indecisão e constante dependência

Como explicamos, a indecisão e a dependência são duas características que sustentam o transtorno, tendo em vista que os pacientes apresentam a certeza de que não conseguem realizar nenhuma ação por conta própria, muito menos tomar decisões — sejam elas grandes ou pequenas.

Assim, não é difícil encontrar clientes com TPD que evitam assumir responsabilidades, inclusive aquelas que não trazem grandes consequências no seu dia a dia, como pegar o transporte público sozinho. Dessa maneira, surge a importância da reafirmação no seu cotidiano, demandando constante atenção das suas figuras de referência.

Como consequência, tais figuras assumem uma postura que reafirma a necessidade de dependência do paciente, devendo supervisionar cada atitude a realizar uma constante aprovação das ações desse indivíduo. É por isso, então, que eles apresentam tendência a uma menor interação social.

Conselhos ilimitados

Da mesma forma que é necessário ter um acompanhamento constante para auxiliar nas suas tomadas de decisão, os pacientes com Transtorno de Personalidade Dependente tendem a solicitar conselhos ilimitados às suas referências, a fim de reforçar a necessidade de ajuda. É importante ter em mente que é nesses momentos que há o aumento da procura por psicoterapia, seja por recomendação, seja por uma tomada de decisão impulsiva.

Assim, o psicólogo deve trabalhar com a perspectiva de que, muitas vezes, a ajuda que ele está buscando não se refere ao anseio pela mudança, mas por um conselho que possa resolver o seu problema mais recente. Então, aos poucos, é possível quebrar as suas barreiras e ressignificar a psicoterapia para esse paciente.

Medo de cuidar de si

Não é nenhum mistério que as pessoas dependentes tendem a apresentar maior medo de cuidar de si, concorda? Afinal, uma das origens do Transtorno de Personalidade Dependente é a crença de não conseguir realizar nada sozinho, o que pode resultar em um comportamento disfuncional e em um medo irracional ao se deparar com uma situação que precisa ser ajustada por conta própria.

Assim, os níveis de insegurança são elevados na mesma proporção da ansiedade, fazendo com que o paciente sinta mais medo em tomar decisões. Aos poucos, a sua autoconfiança é prejudicada, e as comorbidades podem aparecer, sobretudo a depressão e as crises ansiogênicas.

Receio de perder a aprovação dos outros

Outra característica muito presente no TPD é o receio de não ser aprovado pelos outros. Não há como negar que a crítica alheia é um fator que nos ajuda a formar a nossa própria opinião sobre o que devemos vestir, comer e realizar no dia a dia. Ainda que evitemos a preocupação com o ponto de vista das pessoas, às vezes, nos questionamos se nossas atitudes serão aprovadas pelos outros.

Para quem apresenta o TPD, essa preocupação apresenta níveis disfuncionais, fazendo com que seus comportamentos sejam realizados de acordo com o que os outros pensam, e não a partir da sua própria convicção. Nesse sentido, é comum encontrar pacientes que tomam atitudes que vão contra seus valores e princípios apenas para agradar ao seu círculo de amizades.

Quais são as formas de tratamento do TPD?

Você lembra que comentamos que, muitas vezes, as pessoas buscam auxílio psicológico em momentos de crise? Pois é, essa decisão impulsiva normalmente traz desafios para o psicólogo, já que a expectativa que o paciente apresenta não é de mudança, e sim de que o profissional ofereça uma solução para o seu problema atual.

Além disso, em função da dependência, é natural que os pacientes tenham dificuldades em aceitar outro tipo de ajuda, principalmente quando a relação com a figura de apoio apresenta algum tipo de abuso. É por isso que o tratamento para esses casos deve ser embasado em uma mudança de paradigma: estimular a sua autossuficiência.

Ao ajudá-lo a desenvolver as ferramentas terapêuticas necessárias para fortalecer a sua autonomia, o paciente consegue visualizar o quanto a sua dependência interfere na sua qualidade de vida e, então, decidir seguir o caminho da mudança pessoal. No entanto, isso deve ser feito com cuidado, para que ele não signifique a relação terapêutica como mais um fator de dependência.

Você deve estar se perguntando: “então, existe uma técnica específica para ser aplicada com clientes que apresentam TPD?”. Na verdade, a terapia cognitivo-comportamental oferece uma variedade de metodologias que podem — e devem! — ser utilizadas no contexto terapêutico para auxiliar o desenvolvimento da autonomia pessoal.

Aqui, podemos citar três que trazem excelentes resultados: técnicas de relaxamento, de autogestão e controle e reestruturação cognitiva. Todas auxiliam o paciente a tomar consciência sobre suas crenças e comportamentos disfuncionais a fim de ajudá-lo a criar estratégias eficientes para superá-los.

O Transtorno de Personalidade Dependente é uma psicopatologia que tem grandes impactos na vida dos pacientes. Por isso, saber como fortalecer a sua autonomia e oferecer ferramentas suficientes para que eles sejam capazes de tomar suas próprias decisões é a melhor forma de manejar esses casos clínicos, garantindo uma boa evolução terapêutica e, é claro, mais qualidade de vida.

E então, gostou do nosso artigo? Aproveite para continuar a sua leitura e conheça as principais distorções cognitivas que aparecem na clínica!

 

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