Entenda quais são os efeitos psicológicos da solidão

Como já dizia o poeta John Donne “nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio”. Essa frase reflete o quanto somos seres essencialmente coletivos. Ainda assim, há quem prefira se esquivar do convívio social e ficar a maior parte de seu tempo sozinho. No entanto, em longo prazo, os efeitos da solidão podem se tornar uma companhia indesejável.

Diante do cenário atual, no qual o distanciamento social sinaliza um cuidado necessário para evitar riscos maiores, como as pessoas estão sentindo os impactos emocionais desse isolamento? Para cada um, os efeitos da solidão se desenham de forma diferente, sendo bastante relativo aos constructos psicológicos do próprio indivíduo — como autoconhecimento, necessidade afetiva e importância que confere às relações sociais.

O tema é interessante e merece reflexão, não é mesmo? Então vamos seguir juntos nessa leitura!

O que é solidão?

Conforme a definição encontrada nos dicionários, a palavra solidão representa o estado ou a condição de quem está só, desacompanhado. Por trás dessa explicação geral, existe muita subjetividade envolvida no ato de ficar sozinho. Enquanto uns apreciam sua própria companhia e aproveitam esse tempo para se redescobrir, outros podem se sentir intensamente angustiados com a falta de vivência coletiva.

Fragmentando ainda mais a palavra solidão, descobrimos uma infinidade de significados — solitário em meio aos outros, esquecido, menosprezado, sem apoio e parceria, sem reconhecimento, em reclusão etc. Basta saber: o que significa estar sozinho para cada pessoa? Qual é o peso desse sentimento e de onde ele vem? Quais pensamentos antecedem as emoções que afloram como efeitos da solidão?

É essencial estabelecer essa correlação entre gatilhos mentais e emoções resultantes para conduzir a psicoterapia. Afinal, os pensamentos disfuncionais nos fazem construir visões equivocadas das situações vivenciadas. Indo além, tais disfunções mentais estão atreladas a crenças centrais que foram cristalizadas ao longo da vida do indivíduo, como a necessidade de ser amado e reconhecido.

Não há erro em querer que as pessoas nos amem e nos valorizem, mas a raiz dos conflitos internos pode estar no fato de condicionar o próprio bem-estar emocional à aprovação alheia. Aqui reside uma das causas do sentimento de solidão.

Quais são os efeitos psicológicos da solidão?

Sentir-se sozinho em um momento ou outro é um evento natural e pode acontecer até com as pessoas mais bem-resolvidas emocionalmente. Entretanto, sustentar esse sentimento por um período prolongado pode provocar sérios impactos na saúde mental e física.

Observe alguns dos principais efeitos da solidão!

Depressão

A depressão é um dos transtornos mais preocupantes da atualidade e pode afetar pessoas de qualquer idade. Por exemplo, o índice crescente de crianças e adolescentes com sintomas depressivos e até ideação suicida tem chamado a atenção da sociedade.

Podemos colocar a depressão tanto no papel de causa quanto de efeito da solidão. Assim, a falta de convívio interpessoal e a escassez de troca de afeto são fatores significativos para o desenvolvimento de quadros depressivos. Da mesma forma, o sentimento de solidão já é um dos principais sintomas dessa doença.

Outros indícios clássicos da depressão que são agravados com a solidão incluem:

  • baixa autoestima;
  • tristeza;
  • irritabilidade;
  • desesperança e pessimismo;
  • sentimento de inutilidade.

Ansiedade

A depressão não é a única doença mental alarmante do século XXI. Os diagnósticos de ansiedade também não param de aumentar no mundo todo. O excesso de informações e as múltiplas demandas do dia a dia, típicos da vivência contemporânea, colaboram para os pensamentos acelerados e desorganizados.

Em tempos de futuro incerto no qual vivemos, são muitas as preocupações que invadem nossa mente, causando aflição, estresse e ansiedade. É compreensível o quanto esse turbilhão de emoções pode ser devastador para algumas pessoas. Afinal, além de se fechar em casa a fim de combater um inimigo invisível, somos bombardeados constantemente por más notícias e um prognóstico nada favorável em termos de saúde e economia.

Isolamento social

Os efeitos da solidão ainda podem incluir sentimentos de perda, privação e não pertencimento. Sentir-se excluído — mesmo que essa exclusão seja autoprovocada — pode gerar sentimentos de forte dor emocional.

Crenças nucleares do tipo “não mereço ser amado” são reforçadas quando a pessoa distorce sua percepção em relação aos vínculos sociais. As distorções cognitivas por trás dessa visão negativa fazem o indivíduo solitário se isolar ainda mais. Os elementos cognitivos têm importante papel no modo como interpretamos os fatos.

No âmbito da terapia cognitivo-comportamental (TCC), o ciclo citado faz parte de um repertório comportamental de autossabotagem. Isso significa que, de modo não intencional, as pessoas podem perpetuar os resultados que elas mais temem — no caso, ficar em solidão.

Efeitos da solidão na saúde física

Diante de tantos efeitos, a solidão ganha companhia — apreensão, insegurança, inquietude, desesperança etc. — e envia ao cérebro a mensagem de que o corpo está sob estresse. Consequentemente, o organismo pode responder com alterações fisiológicas, em curto e longo prazo, como:

  • aumento da pressão arterial;
  • perturbações no sono;
  • falhas no funcionamento do sistema imunológico;
  • risco aumentado de problemas cardiovasculares;
  • mais propensão à diabetes tipo 2;
  • redução drástica na sensação de bem-estar.

Além disso, o sentimento de vazio que figura como um dos principais efeitos da solidão pode se transformar em um estímulo para o abuso de álcool e outras drogas. A busca por alívio emocional também é percebida na alimentação, reforçando quadros de compulsão, obesidade e outros distúrbios, físicos e psicológicos, associados ao comportamento alimentar disfuncional.

Qual é a importância do convívio social para atenuar os efeitos da solidão?

Com o fácil acesso a milhares de contatos por meio da internet, existem possibilidades ilimitadas de interagir com as pessoas, mesmo em tempos de isolamento social. Ainda assim, o distanciamento de grupos próximos, que compõem uma rede de apoio sólida, pode reforçar os efeitos da solidão.

Nesse sentido, a importância do convívio social não está atrelada à quantidade de nomes em nossa rede de contatos, mas à qualidade das trocas subjetivas que ocorrem. Conviver em coletividade garante compartilhamento, divisão de angústias e multiplicação de reforçadores positivos. Afinal, a atenção ainda é uma das principais fontes de reforço emocional.

No momento atual, com a necessidade de distanciamento social, a mente requer cuidados extras. Para passar por essa fase de maneira mais equilibrada e minorar os efeitos da solidão, três dicas são fundamentais:

  1. manter contato virtual com as pessoas que fazem parte da rede de apoio emocional;
  2. substituir o vazio da mente barulhenta por conteúdos funcionais — trabalho, educação, informação positiva etc.;
  3. buscar suporte com psicólogos que atendem online, especialmente nas abordagens da TCC e da terapia comportamental, para formular estratégias de enfrentamento construtivas.

Apesar de tantos efeitos da solidão, esse sentimento não chega desacompanhado. Existem perguntas e respostas por trás do vazio de estar sozinho. São questões que precisam ser bem exploradas para compreender o porquê de certas lacunas não serem preenchidas quando estamos em nossa própria companhia.

Gostou do tema que abordamos? Aproveite e visite nosso conteúdo sobre as aplicações da TCC no tratamento de transtornos de estresse.

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