Ortorexia – Saiba mais sobre esse transtorno!

Terapeutas cognitivos devem atentar para situações associadas a sofrimento, estando ou não catalogadas nos manuais diagnósticos. Um exemplo é a Ortorexia Nervosa, cujo interesse clínico tem crescido nos últimos anos, apontando para a importância da sua identificação no contexto da terapia e para a necessidade dos psicólogos e psiquiatras estarem informados a respeito dessa condição.

O termo “Ortorexia Nervosa” foi citado pela primeira vez pelo médico Steven Bratman, curiosamente publicado em um jornal de Yoga (Yoga Journal) em 1997, para descrever o que ele chamou de “uma obsessão doentia pela alimentação saudável”. O termo deriva do grego “orto”, que significa “correto”, e “orexi”, que significa “apetite”.

Quase vinte anos depois, em 2016, Steven Bartman e Thomas Dunn publicaram na revista Eating Behaviors uma revisão de literatura a respeito do tema, junto com uma proposta de critérios diagnósticos para o novo transtorno. Apesar do grande interesse despertado na comunidade científica e na população geral, associado a vários estudos e publicações, essa categoria ainda não foi incluída no DSM. O diagnóstico oficial possível atualmente no DSM-5 é o pouco específico Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo.

Nessa revisão, os autores lembram que o primeiro artigo científico sobre o assunto em uma revista médica foi um estudo italiano publicado em 2004, no qual a Ortorexia era descrita como uma “obsessão maníaca” na busca de alimentos saudáveis. Segundo os pesquisadores, essa publicação daria credibilidade ao termo, marcando a transição da Ortorexia Nervosa de uma reflexão informal para um conceito digno de exploração científica.

Apesar de ter sido inicialmente descrita por um cientista americano, a Ortorexia despertou um interesse maior em pesquisadores europeus. Segundo Dunn e Bartman, o paradoxo entre uma dedicação patológica a uma alimentação considerada saudável somente ganhou maior notoriedade nos Estados Unidos a partir do verão de 2014, quando uma jovem de Nova York chamada Jordan Youngler surpreendeu os mais de 70 mil seguidores do Instagram com a revelação de que sofria de um transtorno alimentar que não se baseava na quantidade dos alimentos ingeridos, mas na qualidade. Outras pessoas postaram na rede social que a busca por uma alimentação saudável se tornara doentia, resultando em desnutrição e problemas de saúde.

Os principais meios de comunicação passaram a contar sua história e Jordan foi entrevistada em vários programas de televisão, além de publicações no Wall Street Journal e em outros jornais e revistas. De acordo com os autores da revisão, é notável que um grande interesse da mídia tenha se voltado para uma condição não reconhecida pelo DSM-5 e ainda pouco compreendida.

Em um estudo de prevalência conduzido por Ramacciotti et al. (2011), os autores apontam para um crescimento de quadros clínicos centrados na alimentação com a crescente ênfase cultural em um estilo de vida saudável. Os pacientes com Ortorexia Nervosa podem excluir grande quantidade de alimentos de suas dietas com medo de pesticidas, hormônios ou contaminação por organismos geneticamente modificados. Outros se concentram excessivamente em doenças animais, como a vaca louca e a gripe aviária, ainda que não existam evidências para tamanho nível de preocupação. Outros ainda focam exageradamente nas técnicas e materiais utilizados na preparação dos alimentos, na tentativa de melhorar sua saúde, tratar uma doença ou perder peso. Cabe destacar que a atenção na escolha dos alimentos não é por si só patológica, exceto quando atinge níveis obsessivos e persistentes que impactam negativamente sobre a funcionalidade e a própria saúde do indivíduo.

Assim, segundo esses autores, a Ortorexia Nervosa tem muitas semelhanças com a Anorexia e a Bulimia, pois os três transtornos dão aos alimentos uma importância excessiva no contexto da vida. Ao mesmo tempo, a Ortorexia é altamente relacionada ao espectro obsessivo-compulsivo, com intensa obsessão e hipocondria, em grau muito maior do que busca por uma forma corporal ideal.

Os pacientes com Ortorexia, ao contrário dos que sofrem de anorexia ou bulimia, geralmente estão pouco preocupados com seu peso, mas desejam ser saudáveis e naturais ou estão preocupados em reduzir sintomas físicos reais ou imaginários. A obsessão em comer o que é considerado alimento saudável leva a importantes restrições dietéticas e a padrões excessivamente rígidos de alimentação.

De acordo com a descrição clássica de Donini et al. (2004), citados por Dunn e Bratman (2016), a pureza dos alimentos é valorizada acima de tudo, incluindo efeitos prejudiciais para a saúde. Eles sugerem que os pacientes com Ortorexia sentem angústia quando não estão ingerindo somente os alimentos “saudáveis” ou quando não há uma adequada preparação ou planejamento das suas refeições, além de uma sensação de superioridade em relação as outras pessoas no que diz respeito à dieta. No critério “A” da proposta diagnóstica dos autores, aparecem itens como o consumo de uma dieta desequilibrada do ponto de vista nutricional, devido a crenças preocupantes sobre a pureza dos alimentos; uma quantidade excessiva de tempo (por exemplo, três ou mais horas por dia) lendo ou preparando tipos específicos de alimentos com base em sua qualidade ou composição; e intolerância às crenças alimentares dos outros, entre outros itens.

A ortorexia geralmente é fonte maior de sofrimento psicológico do que de risco físico, mas em alguns casos (principalmente nos que se restringem a alimentos crus e/ou pobres em proteínas) a perda de peso pode ser significativa e o mesmo risco de vida da anorexia pode se estabelecer. Além disso, uma atitude negativa em relação aos alimentos pode terminar desencadeando um quadro de anorexia nervosa com todas as suas características e consequências.

Do ponto de vista funcional, ocorrem prejuízos significativos nos relacionamentos, pois o tema “alimentos saudáveis” domina todo o repertório do indivíduo, que se esforça em convencer as pessoas mais próximas sobre a importância desse tipo de dieta. O resultado final dessas interações desgastantes pode evoluir até o isolamento social.

O tratamento é considerado difícil, pois as pessoas com Ortorexia irão rejeitar formas diferentes de alimentação, bem como o uso de medicamentos, considerados não naturais. A abordagem multidisciplinar inclui a terapia cognitivo-comportamental, onde a psicoeducação, a reestruturação e a exposição gradativa a novos alimentos são componentes importantes. Novos estudos são necessários para uma maior avaliação das propostas de tratamento e o impacto de técnicas cognitivas e comportamentais sobre a evolução do quadro clínico.

Neri Maurício Piccoloto
Psiquiatra, Mestre em Psicologia

Referências Bibliográficas:
Dunn, T.M.; Bratman, S. (2016). On orthorexia nervosa: a review of the literature and proposed diagnostic criteria. Eating Behaviors, 21:11-17
Rmacciotti, C.E.; Perrone, P.; Coli, E. Burgalassi, A.; Conversano, C.; Massimetti, G.; Dell’Osso, L. (2011). Orthorexia nervosa in the general population: a preliminar screening using a self-administered questionnaire (ORTO-15). Eating Weight Disord 16:127-130.</em

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