Personalidade e Funcionalidade

A proposta do DSM 5 para diagnóstico dos Transtornos da Personalidade presente na sessão III do manual, dedicada aos modelos emergentes, coloca em seu primeiro item a avaliação do prejuízo funcional que a personalidade provoca. Esse modelo avalia dois elementos fundamentais do funcionamento da personalidade: o pessoal e o interpessoal.

O funcionamento pessoal do indivíduo inclui o senso de identidade, descrito como uma fronteira clara entre si mesmo e os outros, uma autoavaliação realista e uma autoestima estável; e o autodirecionamento, caracterizado pela capacidade de estabelecer para si mesmo objetivos de curto e longo prazo, além de uma autorreflexão produtiva.

O funcionamento interpessoal inclui a capacidade empática, descrita como a compreensão dos sentimentos e motivações dos outros, o entendimento do impacto do seu comportamento sobre os outros e tolerância às perspectivas diferentes; e a intimidade, apresentada como a profundidade e duração dos vínculos com as outras pessoas, desejo de proximidade e respeito mútuo.

A identificação de prejuízo funcional da personalidade indica a presença de um transtorno da personalidade. Para que isso aconteça, esse prejuízo deve atingir um nível no mínimo moderado. Esse ponto de corte está baseado em evidências empíricas de que o grau moderado de prejuízo amplia a capacidade dos terapeutas de identificar com maior precisão um transtorno da personalidade.

Para auxiliar o terapeuta na avaliação da funcionalidade, o manual disponibiliza a Escala do Nível de Funcionamento da Personalidade, que mensura em níveis de zero a quatro os itens Identidade, Autodirecionamento, Empatia e Intimidade.  O diagnóstico exige que o indivíduo apresente um nível de prejuízo de grau 2 (moderado) em pelo menos duas das quatro áreas funcionais. Um prejuízo grave ou extremo (graus 3 ou 4) sugere a presença de comorbidades entre transtornos da personalidade.

Somente após o preenchimento desse critério que o terapeuta pode avançar na sua avaliação, observando quantos e quais os traços de personalidade que o paciente apresenta. Em geral os clínicos estão habituados com critérios diagnósticos onde o prejuízo funcional aparece no final, após a observação dos sinais e sintomas. Nesse modelo proposto no manual ocorre o inverso, a funcionalidade e o sofrimento associado às características pessoais e interações sociais do indivíduo são o ponto de partida da avaliação que irá embasar a necessidade ou não de tratamento e, em caso positivo, como esse tratamento será planejado e conduzido no caso da terapia cognitivo-comportamental.

O tema em questão é apresentado aos alunos do COGNITIVO no vídeo temático nº 34.

Neri Maurício Piccoloto
Psiquiatra, Mestre em Psicologia

Referência Bibliográfica:
APA. American Psychiatric Association (2014). Manual diagnóstico e estatístico dos transtornos mentais – DSM-5. (5ª. Ed.). Porto Alegre: Artmed. (Original Publicado em 2013).

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